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Opinião Segunda-feira, 12 de Agosto de 2019, 00:09 - A | A

12 de Agosto de 2019, 00h:09 - A | A

Opinião / RENATO DE PAIVA PEREIRA

Fantasiando a Ficção

A esperteza que vem da nuvem está dominando ingenuidade que mora na terra



A Revolta de Atlas é um complexo romance da escritora e filósofa Ayn Rand (1905-1982) escrito em 1957 e publicado no Brasil em 2010. O título remete ao Titã da mitologia grega que foi condenado por Zeus a carregar eternamente os céus sobre os ombros por seu conluio com os gigantes, inimigos do deus dos deuses. 

 O enredo fala de prósperos empresários considerados o motor do mundo, que começaram a ser boicotados e extorquidos por sindicalistas e políticos, defensores da posse coletiva dos bens. Diante das dificuldades criadas pouco a pouco eles foram se mudando para um lugar distante, onde construíram uma nova potência econômica.

 
  

Os que os afugentaram fingiam interesse em um suposto bem comum, mas na verdade queriam manter e aumentar os privilégios dominando os que produziam.

 Hoje políticos e sindicalistas tem menos poder sobre a empresa particular, mas forças opressoras de outra natureza crescem ameaçando os “Atlas” que por conta própria constroem negócios e produzem riquezas.

 

Vamos fantasiar um pouco em cima da ficção da filósofa Rand: no ano de 2021, empreendedores de todos os tamanhos reunidos em uma cidade no centro da América do Sul, discutem a pressão crescente para transferirem parte da renda a empresas que controlam suas atividades através de aplicativos de telefone celular.

 

Hoje políticos e sindicalistas tem menos poder sobre a empresa particular, mas forças opressoras de outra natureza crescem ameaçando os “Atlas” que por conta própria constroem negócios e produzem riquezas

Os mais exaltados são os donos de restaurantes, lanchonetes, hamburguerias e similares:

 

- Acabou nossa autonomia – dizem – o computador de nossos algozes mandam-nos fazer tal ou qual sanduiche ou prato, recebem o valor do cliente descontam a comissão que cobram, só então nos repassam o que sobra, sempre muito pouco.

 

- Conosco é a mesma coisa – afirmam os donos de carros que trabalham para aplicativos – nossos patrões não tem nenhum carro ou moto, mas dizem onde devemos pegar os clientes, onde levá-los e quanto podemos cobrar. Recebem o dinheiro, separam a parte que estipularam pra si e só muitos dias depois nos entregam a diferença.

 

E assim também os proprietários de hotéis protestavam contra as agências de viagens virtuais que cobram vinte por cento para fazer as reservas dizendo que elas não tem nem ao menos uma pequena pensão, mas dominam toda a rede hoteleira. Também os que alugam casas para temporadas reclamam do mesmo abuso.

 - Nós também estamos entrando no mesmo processo – diz um médico – empresas desenvolveram softwares que controlam a demanda por consultas e procedimentos, vendem nossos serviços especializados e nos entregam só uma parte do valor.

 - Carregamos a economia nas costas - diz o líder da reunião, que tinha lido o romance da Ain Rand: construímos hotéis, pousadas e casas, cuja demanda está nas mãos das OTAs e Airbnb; fundamos empresas de alimentação agora controladas pelo ifood; dirigimos de dia e de noite para a Uber que não tem um carro sequer; ralamos anos nas faculdades de medicina para sermos geridos pelo Doctor Consult.

 

- Falem à vontade – dizem os adeptos da “uberização” – o mundo é dos espertos.

 

Nessa primeira reunião os “Atlas” saíram desanimados; por enquanto, parece que a esperteza que vem da nuvem está dominando ingenuidade que mora na terra, entretanto tal qual aconteceu na ficção da escritora americana a revolta pode prosperar.

 

RENATO DE PAIVA PEREIRA é empresário e escritor.



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