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Poderes / PRATA DA CASA

Obra de professora de MT integra Biblioteca do Congresso dos EUA

Adinéia Lemes dá aula na rede pública; para ela, livro contribui para a valorização e resgate da cultura



Adinéia da Silva Lemes, professora da rede pública estadual desde 2007, fez história ao lançar o primeiro livro sobre a história da capoeira em Mato Grosso. A obra, além de dar voz às vivências dos mestres capoeiristas, agora integra a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, maior instituição cultural do mundo.

 

“Capoeira: da senzala a imaterialidade” transcende as barreiras do preconceito e traça o caminho dos escravos, desde a chegada ao território mato-grossense, passando pela dominação, resistência, religiosidade, até o momento em que a cultura afro-brasileira finalmente consegue ganhar seu espaço nas escolas do país.

 
 

 

Em entrevista ao MidiaNews, Adinéia contou detalhes dos percalços que enfrentou para transformar sua tese de pós-doutorado em um livro inédito, de registro e valorização de uma cultura marginalizada.  

 

“Não foi fácil. O reconhecimento é muito difícil, além de que, eu não sou negra e isso influencia muito na aceitabilidade. Eu tive uma barreira muito grande, mas felizmente consegui ultrapassar”, relatou.

 

Como em um programa de caça talentos, a pós-doutora foi descoberta por Igor Fazano, um dos representantes da Biblioteca do Congresso.  Ela explica que, após definir os temas que serão incluídos no acervo, os representantes pesquisam os lançamentos mais relevantes sobre o assunto escolhido.

 

Foi em uma dessas pesquisas que Igor Fazano encontrou-a e descobriu que haveria uma tarde de autógrafos para o lançamento do livro na Casa Cuiabana. Ele entrou em contato diretamente com o local e, no mesmo dia, conheceu Adinéia e fez o convite. Desde a semana passada, a obra integra os mais de 155 milhões de itens da biblioteca.

 

Para a autora, foi como um sonho se tornando realidade. Muito além do dinheiro, era a concretização do seu esforço em agregar à cultura mato-grossense histórias que há muito tempo eram ignoradas.

 

“É pela questão da valorização da cultura. Eu sou apaixonada em cultura popular, porque a gente dá vida, dá voz àquelas pessoas que foram excluídas, que têm sua história, mas que ficam à margem da sociedade. Isso é muito importante”, afirmou.

 

Escolha do tema

 

Sempre envolvida com a temática afro-brasileira, ela contou que não foi complicado escolher o assunto que trataria em sua tese. No entanto, a professora não esperava que não houvesse

Mato Grosso exporta seus mestres de capoeira, mas não tinha essa história escrita. É uma homenagem em vida a essas pessoas

nenhum registro da história da capoeira mato-grossense.

 

Adinéia agora consegue rir sobre o assunto, mas disse que, ao descobrir que não havia uma linha escrita sobre a capoeira no Estado, entrou em desespero. O único material encontrado que abordava o tema era um recorte de jornal, em que anunciavam a proibição de uma roda de capoeira.

 

Quem a ajudou a resolver o dilema de continuar ou não o projeto foi seu orientador. A professora disse que, para ele, essa era uma oportunidade única que deixaria um legado para o Estado.

 

“Ele me falou que eu estava com a faca e o queijo na mão e que esse projeto iria se tornar algo inédito”, contou.

 

Aquele foi o empurrão que ela precisava para tomar coragem e enfrentar o que seria um caminho tortuoso, mas incrivelmente gratificante em sua vida. Após pedir ajuda, ela descobriu  qual mitologia utilizaria, a oralidade.

 

Adinéia buscou desde os primeiros mestres capoeiristas de Mato Grosso até os mais diversos praticantes da arte marcial e entrevistou um por um. Mergulhando em suas vivências e aprendendo com seus relatos, ela começou a catalogar passo a passo as nuances dessa história nunca antes registrada.

 

“Mato Grosso exporta seus mestres de capoeira, mas não tinha essa história escrita. É uma homenagem em vida a essas pessoas”, explicou.

 

A cultura afro-brasileira no ensino

 

“As pessoas aprendem a odiar, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar”, parafraseando uma fala de Nelson Mandela, Adinéia expõe seu pensamento sobre a importância da introdução da cultura afro-brasileira desde as séries iniciais.

 

Para ela, é necessário que as pessoas aprendam desde cedo sobre a origem da cultura brasileira e entendam suas raízes, como a miscigenação de negros, índios e europeus. Adinéia explicou que, desde a música até as comidas típicas consumidas, em sua maioria, são originadas das matrizes africanas, que foram trazidas ao Brasil por meio da escravidão. Segundo ela, a consciência desse fato ajudaria as pessoas a "entenderem o diferente".  

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Adinéia da Silva Leme - Livro Capoeira

Para a professora Adinéia Leme, o livro contribui para a valorização da cultura afro-brasileira

Em sua concepção, esse é o primeiro passo para que os brasileiros comecem a respeitar sua própria cultura, sem diminuí-la em detrimento das culturas de outros lugares.

 

“Todos nós se somos brasileiros. Nós temos o pé na senzala, é a nossa realidade, é a nossa formação racial”, ddefendeu.

 

“Capoeira: da senzala a imaterialidade”

 

Adinéia abdicou de um edital cultural, que transformaria sua obra em domínio público, não apenas para manter o seu reconhecimento sobre a pesquisa, mas, principalmente, por medo de que as informações ali contidas não fossem aproveitadas.

 

Para ela, o livro é sua graditão em forma material, como uma retribuição, através do conhecimento, para a sociedade que deu a ela a oportunidade de fazer seu doutorado. 

 

“Eu não queria que fizessem dez mil cópias que ficassem trancadas em uma sala. Queria que esse livro chegasse às pessoas”, explicou a professora.

 

Poder levar a obra para os mais diversos lugares, e atingir as mais diversas pessoas é a visibilidade que ela procura. Não por ego, mas visando contribuir para a valorização e reconhecimento da cultura afro-brasileira, não só em Mato Grosso, mas no país inteiro.

 

“São essas coisas mínimas, que, a partir do momento que as pessoas têm contato com a sua e as histórias dos seus antepassados, ela vai construir e entender a questão do diferente. Eu acredito na importância da valorização”, explicou.



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